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O CORONA, O CAPITALISMO E AS NOVAS VARIANTES: deus joga dados ou Nós é que não aprendemos nada?

Por Deivison Faustino*, agosto/2021

Não serei eu aqui, mero mortal, a julgar se Einstein estava totalmente errado, em sua carta a Max Born, em 1926, quando afirmou estar convencido de que deus não joga dados, tentando com isso refutar as premissas probabilísticas  e indeterminadas da mecânica quântica. Fato é que as respostas humanas diante pandemia do Novo Coronavírus nos colocam novamente a questão dos dados, da probabilidade e da sorte: não apenas a questão dos dados cúbicos, lançados à sorte em um jogo, mas também os dados de infecção e morte pelas novas variantes do Corona no mundo. 

A verdade é a seguinte: se não fossem essas duas variantes do Sars-Cov-2  (a Beta e a Delta) a humanidade vacinada já estaria voltando ao “normal” nos lugares onde a vacina está disponível.  Mas espera um pouco aí…. ALGUMA COISA ERRADA NÃO ESTÁ CERTA, NESTE JOGO!  

Em primeiro lugar, ninguém aguenta mais essa interrupção quase infinita nas nossas rotinas mas, infelizmente, quem já se vacinou só poderia “voltar ao normal” quando a maioria absoluta da população estivesse vacinada. Enquanto isso, nem os vacinados estão seguros já que as vacinas existentes diminuem drasticamente a chance de morte, mas não a eliminam por completo… e ainda tem muita gente vacinada sendo hospitalizada e tendo que conviver com as sequelas posteriores à Covid-19. Então, definitivamente, não é o momento de baixar a guarda e “voltar ao normal!”.  Para piorar, as desigualdades sociais – entre os quais se destacam as de classe, gênero e raça – ampliam a chance de infecção e morte pelo vírus, mas também diminuem o acesso às vacinas

Em segundo lugar, as duas variantes que mais aterrorizam a humanidade neste momento são filhas legítimas – com nome, RNA e CEP – da desigualdade capitalista e do negacionismo anticientificista. A equação probabilística –  e felizmente, há uma certa ordem no caos – é bem simples: quanto mais pessoas infectadas, mais o vírus se multiplica; quanto mais se multiplicar, maior a chance de novas variantes (algumas menos e outras muito mais agressivas que as que conhecemos).  A biologia já sabe disso há muito tempo: se um casal tem muitos filhos a chance deles se diferenciarem entre eles é enorme. Agora, se os filhos dos filhos dos filhos tiverem ainda mais filhos que os pais, os seus consecutivos filhos serão ainda mais diversos entre si e em relação aos demais parentes. É a chamada lei da variabilidade genética. Mas o que os dados mencionados pelo nosso bom velhinho têm a ver com isso?

Talvez, as atuais variantes teriam surgido de qualquer forma, em algum país pobre, sem sistema universal de saúde ou sem potencial para produção de vacina ou mesmo em um país rico, amplamente vacinado e, depois, morreria antes de se reproduzir, mas o fato é que a variante Gama surgiu no final de 2020 na cidade de Manaus no contexto da maior crise sanitária que já assistimos, provocada pela combinação nefasta da negligência política com as medidas sanitárias mínimas e pela aposta negacionista Federal e local em medicamentos e medidas não comprovadas cientificamente  em nome dos interesses do comércio local. 

Já a variante Delta surgiu na Índia, a maior produtora de vacinas do mundo. Embora os laboratórios indianos estejam produzindo centenas de milhões de doses de imunizantes para todos os países que possam comprá-las, apenas uma pequena porcentagem da sua população (8,3%) foi efetivamente vacinada com as duas doses e lá, assim como aqui, tanto o negacionvarismo religioso quanto a pressão dos setores econômicos colocaram dificuldades para concretizar as medidas de contenção de ampla circulação da população. O resultado foi uma catastrófica crise social e o nascimento da variante que agora assusta o mundo todo. 

O jogo de dados da pandemia no capitalismo é paradoxal: por um lado, a desigualdade econômica – e racial, no caso brasileiro – na distribuição mundial de vacinas  prejudica o combate ao vírus e o fim efetivo da pandemia, impedindo que as economias voltem ao “seu normal”,  proporcionando, ao mesmo tempo,  que surjam novas variantes potencialmente piores que as já existentes. Por outro lado, mesmo nos países ricos – alguns compraram mais vacinas do que têm de habitantes e outros já estudam a terceira dose enquanto a maioria dos países  ainda não imunizou nem a metade de suas populações – têm crescido a quantidade de negacionistas: pessoas que por razões religiosas-fundamentalistas, crenças pessoais equivocadas ou algo do gênero se recusam a tomar vacina, mesmo quando existe a disponibilidade do insumo. 

Nos EUA, um dos países com maior disponibilidade de vacinas, constatou-se que os números de infecções e mortes por Covid-19 voltaram a subir recentemente exatamente neste grupo que se nega a imunizar-se. Na Europa, crescem os protestos anti-vacina. Enquanto o Canada e EUA administraram mais doses do que o total de sua população, e os Emirados Árabes Unidos vacinaram 74% da sua população com a segunda dose, a República Democrática do Congo e o Haiti só imunizaram 0,1% de sua população. 

Se jogarmos os dados à sorte, numa roleta russa, não teremos como saber também se você, especificamente, sua mãe ou seu avô estarão entre as pessoas infectadas (mesmo que vacinadas), assintomáticas  ou em algum caso grave, mas, sobretudo, não saberemos nunca, com certeza, se, quais, onde novas variantes surgirão, e nem se as vacinas existentes serão eficientes, fazendo desmoronar todos os esforços atuais. 

O que sabemos, seja pelo princípio da incerteza, descrito por Heisemberg (Eistein não precisava ficar tão preocupado), seja pela simples observação das taxas de infecção e morte após o surgimento dessas novas variantes é que todo mundo perde quando a humanidade (um país, estado ou município) não consegue garantir condições iguais de prevenção, tratamento e imunização da população. É em nome de uma visão liberal da economia – que a mistifica a ponto de ignorar que ela precisa de pessoas vivas para produzir riquezas – revestido por um negacionismo fundamentalista que se negligencia medidas sanitárias de proteção. 

Eis o paradoxo: a ironia providencial dos dados é que há uma certa ordem no caos, não apenas do caos sanitário provocado pela sede irrefreável pelo lucro, mas, sobretudo, no caos relativamente aleatório que condiciona a reprodução e a variabilidade dos vírus: quanto maior a circulação e menor o ritmo da imunização, maior a chance de novos mortos ainda não-vacinados, novos casos de infectados vacinados com sequelas e, sobretudo, novas variantes que resistirão à vacina… Em outras palavras, é justamente a polarização que segue opondo a economia à vida – como se a primeira não fosse fruto da segunda –  um dos maiores riscos, inclusive à economia, mas sobretudo, à vida.  

A sede por lucro, o negacionismo anticientificista, e um projeto assumidamente genocida, associado às desigualdades econômicas e sociais – entre as quais destacamos as de gênero e raça – no acesso à prevenção, ao tratamento e a imunização têm atuado como os maiores parceiros do Coronavirus. E assim seguiremos, enquanto outras forças não entrarem na arena política como protagonistas. Curiosamente, é exatamente neste momento, em todo o Brasil, que se inicia o planejamento e o retorno “à normalidade”. Alguma coisa errada não está certa, aí, mas se deus joga dados ou se simplesmente não aprendemos nada, fica a critério do leitor.

* Deivison Faustino (@deivisonnkosi) é Professor do PPGSSPS-UNIFESP e ativista-pesquisador do Instituto Amma Psique e Negritude e integrante do grupo de trabalho do Instituto Polis observação das desigualdades de raça, classe e território na pandemia. 

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